"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"
Florbela Espanca

6 de janeiro de 2008

MÃE MENININHA DO GANTOIS



Na Bahia, vestir roupa branca nas sextas-feiras representa um hábito muito antigo, sendo proveniente do candomblé. Essa tradição é uma homenagem ao deus africano Oxalá que, no sincretismo religioso, representa uma personalidade equivalente a Jesus Cristo.

No início da colonização brasileira, os rituais de candomblé eram praticados nos terreiros das fazendas e nas senzalas. Sabe-se que o primeiro terreiro foi criado na Bahia, oficialmente, há 450 anos . Ele se chamava Engenho Velho (ou Casa Branca) e funcionava na atual avenida Vasco da Gama, em Salvador. Dele, surgiram os terreiros Gantois (localizado na Federação), e o Axé Opô Afonjá (em São Gonçalo do Retiro). E, desses dois, originaram-se muitos outros terreiros, tanto na capital do Estado, quanto nas principais cidades do interior baiano.

O candomblé é uma prática religiosa que reverencia os Orixás - os espíritos da natureza oriundos dos elementos primários terra, fogo, água e ar. Tais espíritos são deuses guerreiros que protegem a caça, a pesca, a maternidade, os reis e as rainhas, entre outros. Os Orixás são adorados em iniciações secretas e festas anuais, dedicadas especificamente a eles. Para cada Orixá, existem cores, vestimentas, dia da semana, saudações e/ou comidas peculiares, os quais as pessoas referendam e/ou oferecem, ao pedir proteção, saúde, felicidade e paz.

Os adeptos do candomblé vestem-se com roupas sui generis e dançam ao som de atabaques. Ao entrar em transe, acreditam que os espíritos dos Orixás conseguiram penetrar em seus corpos.

Inserida no contexto dos deuses africanos, no dia 10 de fevereiro de 1894, nascia Maria Escolástica da Conceição Nazareth. Ela seria chamada, posteriormente, de Mãe Menininha do Gantois, e representaria a mãe-de-santo mais popular de todo o Brasil.

Qual o motivo, no entanto, de a palavra Gantois vir atrelada ao nome de Mãe Menininha? É preciso explicar que esse era o sobrenome de um francês, residente em Salvador, que cedeu um terreno, de sua propriedade, para que nele fosse construído um terreiro de candomblé. Como homenagem àquele senhor, a partir de então, os adeptos do candomblé passaram a atrelar, o nome Gantois, a tudo que estivesse relacionado àquele terreiro.

Cabe registrar que Maria Escolástica era uma descendente direta de escravas libertas: das negras que fundaram o primeiro terreiro Nagô do Brasil - o Ile Axé Aira Entile - em 1849. A primeira mãe-de-santo conhecida no país chamava-se Maria Júlia da Conceição Nazareth, e era a avó de Mãe Menininha. Ela atuava em um candomblé no bairro da Barroquinha, em Salvador. Quando Mãe Maria Júlia morreu, em 1910, a sua filha - Pulchéria Maria da Conceição - foi escolhida para ser a sucessora do terreiro. Oito anos depois, com o falecimento de Pulchéria, Mãe Menininha assumiria os trabalhos do terreiro. Tinha na época, apenas, 22 anos de idade.

Admirada pela sabedoria, gentileza, conhecimentos, humildade e pulso firme, Mãe Menininha do Gantois foi a grande responsável pela difusão e popularização do candomblé na Bahia, tendo sido amiga e conselheira espiritual de várias personalidades ilustres, a exemplo de Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Zélia Gatai, Pierre Verger, Caribe e Nina Rodrigues.

Jorge Amado, um dos seus grandes admiradores, dizia que ela era uma filha de escravos que se fez rainha, e que havia orientado o povo baiano com exemplar dedicação e perene bondade. Caymmi, por sua vez, no verso de sua canção Mãe Menininha, ressaltava que a mão da doçura estava no Gantois. E, Vinicius, enalteceria em prosa e verso a famosa mãe-de-santo que usava saias de renda e óculos de lentes grossas.

Mãe Menininha, além disso, foi muito procurada por antropólogos e sociólogos, que nela buscavam uma preciosa fonte de informações para redigir suas teses e estudos acadêmicos. A sua importância ficou tão evidenciada, no cenário cultural do país, que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos chegou a emitir um selo comemorativo, em homenagem ao centenário de seu nascimento.
A querida mãe-de-santo faleceu no dia 13 de agosto de 1986, aos 92 anos de idade. O Gantois foi sucedido, então, por sua filha mais velha, Cleuza Millet, que ficou sendo conhecida como Mãe Cleusa de Nana, e que dirigiu o local até 1998. Com a sua morte, a sucessão do terreiro passou para Mãe Carmem de Oxalá - a irmã caçula de Cleuza. Nenhuma delas, entretanto, foi tão amada e admirada quanto Mãe Menininha do Gantois.

Um comentário:

Izil disse...

Interessantíssimo esse levantamento histórico, dando-nos noção sobre "Gantois", que muitos, inclusive eu achava que era "Cantuá".
Mesmo não sendo seguidora do candomblé, sinto que todos nós sempre temos um dedinho do pé apoiado nele : ou pelo espiritualismo, ou pela roupa branca, ou pela música....
O Brasil tem o pé no terreiro.