"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"
Florbela Espanca

9 de maio de 2008

TERESA MARGARIDA DA SILVA E ORTA

A palavra é todo o bem que me abona",
escreve Teresa Margarida da Silva e Orta, no século XVIII. Sua obra, especialmente Aventuras de Diófanes, é de suma importância para o estudo da história do romance como gênero literário, além de ter a própria Teresa Margarida inegável papel de vanguarda na história das mulheres.
Teresa Margarida da Silva e Orta nasce em São Paulo, em 1711 ou 1712. Filha de José Ramos da Silva, português que constrói imensa fortuna no Brasil, e de dona Catarina Dorta, brasileira, paulista, descendente dos famosos bandeirantes.
Com aproximadamente cinco anos de idade, vai para Portugal na companhia de seus familiares.Em Portugal, Teresa Margarida e seu irmão Matias Aires recebem esmerada educação, a melhor que a fortuna de José Ramos da Silva, Cavalheiro da Ordem Militar de Cristo e Provedor da Casa da Moeda de Lisboa, pode lhes proporcionar.Desde muito cedo, Teresa Margarida dá mostras de seu caráter rebelde e determinado.Com cerca de 16 anos, casa-se, contra a vontade de seus pais, com Pedro Jansen von Praet.
Em conseqüência de seu casamento, é deserdada por José Ramos da Silva e rompe relações de amizade com seu irmão Matias Aires, futuro autor das Reflexões sobre a vaidade dos homens.Teresa Margarida e Pedro Jansen passam por momentos difíceis. Mas, para alegria do casal, José Ramos da Silva passa a dar-lhes assistência monetária.
Ao longo de sua vida, o casal terá doze filhos.
Em 1750, Teresa Margarida apresenta às Censuras do Santo Ofício, do Ordinário e do Paço, o romance Máximas de virtude e formosura com que Diófanes, Climinéia e Hemirena, príncipes de Tebas, venceram os mais apertados lances da desgraça. O romance de Teresa Margarida espera dois anos para ser aprovado pela Censura. Em 1752, sai, pela Tipografia de Miguel Menescal da Costa, as Máximas de virtude e formosura. O nome de sua autora vem encoberto pelo pseudônimo Dorotéia Engrácia Tavareda Dalmira.
Sobre tal publicação traz a Gazeta de Lisboa de 17 de agosto de 1752 a seguinte nota:
Também saiu a luz o livro intitulado Máximas de virtude e formosura, obra discreta, erudita, política e moral, em que a sua autora, se não estrangeira ao menos peregrina, no discurso, e na elegância, imita, ou excede ao Sapientíssimo Fenelon na sua viagem de Telêmaco fazendo-se digna das mais atenciosas venerações. Vende-se na loja de Francisco da Silva de fronte de S. Antônio.
Nas páginas das Máximas de virtude e formosura, Hemirena, a protagonista do romance, veste-se com roupas masculinas e passa a chamar-se Belino, "disposta a vencer os maiores assaltos de sua cruel fortuna".A figura de Hemirena, apesar de difundir os ideais de mulher casta, pura, obediente e pouco falante, apresenta-se como uma pessoa forte, determinada e senhora da arte da retórica. Hemirena, vestida de homem, realiza proezas como a de salvar sua mãe e seu noivo da morte em um naufrágio. Sua mãe e seu noivo desconhecem sua verdadeira identidade, mas o leitor e a leitora têm acesso à informação de que Belino é Hemirena.
Portanto, através da narradora, somos informados de que aqueles grandes feitos são realizados por uma mulher.No século XVIII, há ampla discussão sobre a mulher. Aliás, o Século das Luzes também é conhecido pelo epíteto de o Século das Mulheres.Teresa Margarida também participa da discussão sobre as mulheres ao atribuir a um personagem feminino a força física e a inteligência de uma verdadeira guerreira.Em 1758, o nome da escritora das Máximas de virtude e formosura aparece na Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado.
Mas, em 1770, Teresa Margarida é presa por ordem do marquês de Pombal, sob a alegação de haver mentido ao rei, D. José.
Não se sabe o motivo real de sua prisão. É sabido que a autora colaborou na campanha contra os jesuítas promovida pelo todo-poderoso marquês de Pombal. Porém, Teresa Margarida permanece sete anos encarcerada no mosteiro de Ferreira e Aves e lá escreve um poema (Poema épico trágico), uma novena (Novena ao Patriarca São Bento) e uma petição.
Em 1777, morre D. José e o marquês de Pombal é afastado do poder.
Sobe ao trono D. Maria, a mesma a quem foi dedicado Máximas de virtude e formosura. Sabendo disso, Teresa Margarida escreve uma petição à rainha e nesse mesmo ano é libertada por ordem de Sua Majestade
Ainda em 1777, sai uma nova edição das Máximas, agora com o título de Aventuras de Diófanes ou Máximas de virtude e formosura com que Diófanes, Climinéia e Hemirena, príncipes de Tebas, venceram os mais apertados lances da desgraça, pela Régia Oficina Tipográfica que mantém o pseudônimo Dorotéia Engrácia Tavareda Dalmira.
Curiosamente, há uma outra versão da edição de 1777, impressa na Régia Oficina Tipográfica e que apresenta o seguinte título: Aventuras de Diófanes, imitando o sapientíssimo Fénelon na sua viagem de Telêmaco.
Em 1790, um ano após a revolução francesa e no mesmo ano da conjuração mineira, é publicada a terceira edição de Aventuras de Diófanes pela Régia Oficina Tipográfica. Tal edição traz novamente o pseudônimo Dorotéia Engrácia Tavareda Dalmira, porém vem acrescida do nome de Alexandre de Gusmão como o "verdadeiro autor do livro" e de uma nota do editor da Régia Tipografia que atribui o romance a Gusmão. Essa declaração é feita trinta e sete anos após a morte de Gusmão e ainda em vida de Teresa Margarida, pois esta vem a falecer em 1793 com cerca de 80 anos.Teresa Margarida nada escreve sobre o assunto.
Talvez por ter passado sete anos presa "sem ver a luz do dia". Talvez por ter ousado escrever e publicar um romance.O romance moderno surge na Inglaterra no século XVIII, mas é um gênero literário que precisa firmar-se. As mulheres que se arriscam na aventura que é ser mulher e escrever um romance no século XVIII ainda são vistas com reservas.
Não é à toa que Teresa Margarida, no prólogo de Aventura de Difófanes, demonstra ter consciência da amplitude do seu ato. No Século das Luzes, escrever um romance ainda é uma aventura arriscada para as mulheres.
Para o leitor ter uma idéia das barreiras impostas às mulheres escritoras basta lembrarmos que no século XIX, no Brasil, Narcisa Amália é criticada por expressar suas idéias políticas em artigos e poemas.
À mulher são relegados os temas cor-de-rosa e os devaneios pueris. No início do século XX, Virgínia Woolf escreve em A Room of One's Own sobre as dificuldades encontradas pelas mulheres que queriam escrever e publicar livros.
No século XVIII, Teresa Margarida não só escreve como também publica Aventuras de Diófanes.Teresa Margarida da Silva e Orta está entre aquelas que ousaram trilhar caminhos proibidos às mulheres no passado: os amplos caminhos da escritura.
Fonte Net

Nenhum comentário: